Diário de Bordo - Manoela Afonso


Tradução do poema "The Raven" de Edgar Allan Poe por Machado de Assis

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o colchão refletia
A sua última agonia.
Eu ansioso pelo Sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui, no peito,
Levantei-me de pronto, e "Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minh'alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo, e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso
Já cochilava, e tão de manso e manso,
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra
Que me amedronta, que me assombra.
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais,
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento, e nada mais."

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
de um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta em um busto de Palas:
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gosto severo, - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais."

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que eu lhe fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta a dizer em resposta
Que este é seu nome: "Nunca mais."

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário.
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse,
Nenhuma outra proferiu, nenhuma.
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
"Tantos amigos tão leais!
"Perderei também este em regressando a aurora."
E o corvo disse: "Nunca mais."

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."

Segunda vez nesse momento
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível:
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
"Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o corvo disse: "Nunca mais."

"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! (clamei, levantando-me) cessa!
Regressando ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo...
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o corvo disse: "Nunca mais."

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

 

Imagem: rabisco de seminário, 26/10/06



Escrito por Manoela Afonso às 01h10
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# Vocês estão sempre em busca de uma emoção que já foi sentida antes, assim como gostam de receber de volta da tinturaria um velho par de calças, que parecem novas desde que não sejam olhadas de muito perto. Os artistas são como tintureiros, não se deixem ludibriar por eles. As verdadeiras obras de arte modernas não são feitas por artistas, mas, muito simplesmente, por homens. #

 

Francis Picabia, Jesus-Christ Rastaquouère, Paris, 1920, p.44

Imagem: rabisco de seminário, 26/10/06



Escrito por Manoela Afonso às 20h32
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DESANUVIANDO

 

 

É preciso não esquecer nada
 

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
 

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
 

(Cecília Meireles - 1962)

 

Imagem: ainda em Pirenópolis - out/06



Escrito por Manoela Afonso às 22h48
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rabisco de seminário, 26/10/06 - resquícios de piri



Escrito por Manoela Afonso às 02h20
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Tinha uma árvore no caminho...

volto pra casa pensando

alguma coisa ficou diferente

ficou, ainda que não pareça

 

penso, repenso, comparo, analiso

epa, isso pode ser o motivo

mas esse não é o meu caminho de casa

 

Marcos Prado, Ultralyrics, p. 146

E mais imagens bucólicas de Pirenópolis



Escrito por Manoela Afonso às 19h01
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eu havia esquecido dessa capacidade que a natureza tem de cura... o espírito se aquieta finalmente... se há algo além dessa existência, o portal para o contato pode estar ali, na natureza... o conjunto é perfeito: sons, odores, visual, tato... e diante dessa grandiosidade, sinto-me minúscula e ridiculamente frágil... mas feliz por poder compor essa cena

 

Pirenópolis - Cachoeira Nossa Senhora do Rosário - out/06

 



Escrito por Manoela Afonso às 01h32
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... nessas quebradas de goiás...

Andanças em Pirenópolis - outubro/06



Escrito por Manoela Afonso às 23h48
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a história é você quem conta



Escrito por Manoela Afonso às 23h19
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caminhante

O caminho se faz ao andar (eu gostava de voar antigamente...). Mas olhar para o chão não leva a lugar nenhum. Mesmo parado ou andando para trás, não há nada que eleve mais a alma que deixar o olhar se perder lá, no horizonte, esse limite que tende ao infinito.



Escrito por Manoela Afonso às 01h02
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Fui ali, no portão, pegar o sanduíche com vitamina de morango que costumo pedir num pit-dog aqui perto de casa. É a refeição de domingo... um dia miojo, outro pizza, outro sanduíche... vida de solteira... e me deparei com essa cena. É, aqui em Gyn é assim: cavalos, burros, jumentos, galinhas perambulam por algumas praças... ao menos aqui onde eu moro...

Imediatamente me vieram à mente Avalon, William Blake, algo mágico, algo medieval... a noite está silenciosa e esse animal solitário me fez pensar sobre a minha condição, aqui, nessa noite na qual vivo.

 

Canção Louca

A brava brisa brame
E a noite é fria;
Vem a mim, Sono,
E abraça minha agonia.
Mas arre! O dia prenhe
Preenche já o leste,
E as aves sonoras da aurora
Da terra se escarnecem.

Arre! Para os ares
Da cúpula celeste
Minhas notas partem,
Fartas de pesares.
Elas batem no ouvido da noite,
Molham os olhos do dia
Brincam com tempestades
Enlouquecem a ventania.

Como um demônio na nuvem
Em uivo agudo,
Pela noite eu procuro,
E com a noite me curvo;
Não me serve o leste
Onde o consolo acresce,
Pois a luz agarra meu cérebro
Com dor frenética.

(William Blake, tradução de Regina de Barros Carvalho)

http://br.geocities.com/edterranova/blakepoe.htm



Escrito por Manoela Afonso às 21h48
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ESPERANÇA






 

ensaio - vídeo experimental

esse vai para minha irmã, a protagonista



Escrito por Manoela Afonso às 07h35
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13

"Assim devemos, pela morte, penetrar naquela vida, que transforma a noite egípcia no dia de Gosem, oferecendo-nos a veste, coberta de pérolas, da eternidade"

Hallmann, em Origem do drama barroco alemão, Walter Benjamin, p.202

...quando as sombras se vão levam o olhar consigo...



Escrito por Manoela Afonso às 03h37
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...as sombras do mundo agora estão no meu olhar...

 

gyn, assim.



Escrito por Manoela Afonso às 04h19
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CLAREZA




 


vídeo experimental - drama em gyn

 

tudo bem, eu exagerei na escuridão... fazer o que né gente? onde ando está escuro... mas dei uma clareada para que vocês possam ver algo... :)



Escrito por Manoela Afonso às 22h35
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Escrito por Manoela Afonso às 19h13
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UM GATINHO, UM VIOLÃO

Miminho adora música


quem procuro quando vou à rua é sem

pre a mesma pessoa e nunca encontro

quem procuro escapuliu dos mapas en

goliu as chaves e não está em casa

não imagino como seja ou se é vivo

simplesmente procuro e caminho por

ruas que nem sei se existem

 

Marcos Prado - Ultralyrics - p.147



Escrito por Manoela Afonso às 23h41
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EQUÍVOCO! :)

Então! Descobri que o poema aí de baixo não é da Raquel, ela se apropriou dele para compor esse guardanapo artístico. O poema é do amigo Marcos Freitas:

TOME NOTA

 

vida, resto de bombril

oxidado em canto de pia.

o eterno ato de trocar

lâmpadas queimadas.

 

avulsos livros ao chão

entre sapatos e xadrez.

a eterna luz acesa

esquecida à noite:

sono em copo d’água,

em cima do criado-mudo.

 

Marcos Freitas. No livro: A Vida Sente a Si Mesma, 2003.

 

 

Chuva, coisa boa! Agora Gyn parece Curitiba... ao menos pelo céu cinzento. É, só por isso.



Escrito por Manoela Afonso às 02h03
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TOME NOTA...

 

Vida, resto de bombril

Oxidado em canto de pia

O eterno ato de trocar

lâmpadas queimadas

Avulso livro ao chão

entre sapatos e xadrez

a eterna luz...

(e o guardanapo foi queimado)

 

Palavras de Raquel, na sua despedida para Santiago/Chile - último encontro para troca dos livros de artista que aconteceu em 17/06/06 no Rayuela em Brasília... agora me diz Raquel, você com seus 10 anos já escrevendo poesias assim??? Notem as intervenções feitas com vinho e vela... tô falando que essa menina promete! Raquelete, manda seu endereço para eu te escrever e enviar seu guardanapo e outras coisinhas daqui. Um beijo e saudade de você e da mamãe!



Escrito por Manoela Afonso às 19h12
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Aurora de róseos dedos - em gyn

E quando, certa vez, a vida me perguntou: "Que vem a ser a sabedoria?" - respondi solícito: "Pois é, ai de mim, a sabedoria! Tem-se sede dela e não se fica saciado, olha-se para ela através de véus, procura-se caçá-la com redes. É bonita? Sei lá! Mas é uma isca com que as mais velhas carpas ainda se deixam fisgar. Mutável, é ela, e voluntariosa; vi-a, freqüentemente, morder os lábios e passar o pente no cabelo a contrapelo. Talvez seja má e falsa e, em tudo, feminina; mas, quando fala mal de si mesma, é então que mais seduz."

Depois que disse isto à vida, esta riu maldosamente e fechou os olhos. "De quem estiveste falando?", indagou. "De mim, não é verdade? E ainda que tivesses razão - isso lá se diz na minha cara! Mas, agora, vamos, fala, também, da tua sabedoria!"

Ah, voltaste a abrir os olhos, então, ó amada vida! E pareceu-me que, de novo, eu me afundava no imperscrutável.

Assim cantou Zaratustra. Mas, quando a dança acabou e as jovens foram embora, sentiu-se triste. O sol já há muito se pôs - disse por fim; - a relva está úmida, dos bosques chega um ar frio. Qualquer coisa desconhecida há a meu redor, olhando, pensativa.

Como? Ainda vives, Zaratustra?

Por quê? Para quê? De quê? Para onde? Onde? De que modo? Não é loucura, viver ainda?

Ah, meus amigos, é a noite que assim pergunta dentro de mim. Perdoai-me a minha tristeza! Fez-se noite: perdoai-me que se fez noite!

Assim falou Zaratustra.

p. 122

 

Imagem: aurora de róseos dedos, como diria Ulysses, lá pelas 5h50 aqui em gyn.



Escrito por Manoela Afonso às 02h57
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