"De Nietzsche gostaria de ter a cabeça cheia de minhocas pensantes e decifradoras da esfinge do humano ser. Mas dele só herdei a gastrite e essa mania de viver triste."
Ulisses Tavares - da Tribo das Artes de 2004 - Frase do profile de Jaque Ribeiro, genial! Jaque, só espero que você realmente não esteja com gastrite... e nem triste. Um beijo!
Circo Rua e tal - fotografia de Cris Gouveia - esse menino com olho mágico! - Santo André/SP
"Na rua, sou gente De frente pro mundo De gente que se esquece Que a rua é diferente.
A internet é mesmo uma caixinha de surpresas, a Rede-Mãe da humanidade.
Estava aqui, exaustivamente em busca da música "Polaroid" do Nenhum de Nós, quando me deparei com a música "Polaroid of a dead man", de Allen Cordell. Até aí, tudo bem. Acessem http://www.allencordell.com/ e vejam em 'images' os trabalhos lindos desse garoto.
Boa degustação!
Do Nenhum de Nós ficou só a letra...
Polaroid
- Nenhum de Nós -
Passou pelo corredor No bar onde ele estava Depois derramou bourbon Manchando a parede
O sol lhe caía bem Entrando na avenida Sua vida não era mais sua vida Mas ela estava ok
Já vejo ela cruzar Cruzando um bosque Já vejo ela afastando-se de mim
Seus seios, duas maçãs Servidas no café Segredos daquela manhã Que me mostrou sua pele
Estávamos em um bar E se cortou na cara Vibrava como em um nirvana E começou a correr
Já vejo ela cruzar Cruzando um bosque Já vejo ela afastando-se de mim
Passávamos todo o dia Deitados em uma cama O tempo, maldita adaga Lambendo nossos pés
Brilhava, era uma estrela Nunca fazia nada Depois disse que me amava E se cortou outra vez
Sangrou, sangrou, sangrou E sorria como louca Não existe luz nem força viva Tão poderosa De todas elas, ela foi Minha frase mais preciosa Todo o seu corpo com espinhos E a mim só sobraram moscas !
Em meio a cartas, papéis, livros, catálogos, arquivos, memórias e responsabilidades, tento organizar a desordem. Mas quando mexo aqui, bagunço acolá, num efeito em cadeia de desordenamentos deliciosamente surpreendentes. Minha casa é um labirinto e não há Ariadne que me salve desses meus pensamentos minotáuricos.
"É preciso provocar confusão; isto promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório, gera vida, gira o mundo!"
Dalí
Imagem: Amelie - encarte do cd da trilha sonora por Yann Tiersen - é ao som de Tiersen que fico às voltas com o meu lar - janeiro/07
"Onde está a realidade quando dois espelhos estão frente a frente?"
Fonte: Cauquelin, Arte Contemporânea: uma introdução, p.108
Talvez a realidade esteja no universo existente entre os dois espelhos.
Imagem: eu, aqui e agora, resenhando - Gyn, jan/07
E pasmem! Alguém se atreveu! Nesse mesmo livro de Anne Cauquelin ela chega a uma definição!
Em tempos em que tudo é qualquer coisa, em que fronteiras são permeáveis, ora aqui ora ali os pesquisadores temem bater o martelo para algum enunciado (ou não hahaha), Cauquelin demonstra alguma coragem.
Então, abram o coração para essa definição - com base em páginas anteriores a respeito de Duchamp e Warhol:
"O percurso sonhado por Andy Warhol - passar do status de artista comercial ao de artista de negócios - está completo. No caminho, fechou-se também a definição de arte contemporânea - fora da subjetividade, fora da expressividade - na qualidade de sistema de signos circulando dentro de redes. Definição estrita, quase insuportável em seu rigor."
Fonte: Cauquelin, Arte Contemporânea: uma introdução, p.120
“O objetivo da arte é o homem (...), a arte reensina ao homem sobre o humano (...), toda arte é uma vitória sobre a barbárie (...)”
Hegel (ainda bem que existe Hegel para confortar meu coração)
Imagem: fotografia da obra 'Gran Ángel' (2004), de Roberto Fabelo (1950), da mostra de arte cubana do Museu Oscar Niemeyer - Curitiba, dez/2006. Técnica: carvão sobre tecido.
... como diz a Escritura Lankavatara: 'Não há nada no mundo senão a própria Mente'
Jack Kerouac, 'Grande viagem à Europa', in 'Viajante solitário' - p.170
Imagem: Trabalho do artista português José Pedro Croft - Porto (1957). Muito interessante a maneira como ele trabalha os espaços aparentemente vazios. Você olha e, de repente, não é o vazio que está ali, mas sim o reflexo, a fragmentação desse reflexo e a continuidade da estrutura através do espelho. É um labirinto. (Estação Pinacoteca - São Paulo - janeiro/2007)
"Porque sensação é vazio, envelhecimento é vazio. - Tudo é apenas a Dourada Eternidade da Mente de Deus; por isso pratique a bondade e a compreensão, lembre que os homens não são responsáveis por si mesmos, por sua ignorância e maldade, se deve ter pena deles, Deus se compadece porque o que há para dizer a respeito de qualquer coisa visto que tudo é apenas o que é, livre de interpretações? - Deus não é "aquele que alcança", ele é o "viajante" naquilo em que tudo é, o "que subsiste" - uma lagarta, mil cabelos de Deus. - Portanto, saiba sempre que isto é apenas você, Deus, vazio, desperto eternamente livre como os incontáveis átomos da vacuidade em todos os lugares. Decidi que, quando retornasse ao mundo lá embaixo, tentaria manter minha mente límpida em meio às obscuras idéias humanas que fumegam como fábricas no horizonte através do qual eu caminharia, em frente..."
Jack Kerouac, 'Sozinho do topo da montanha', in 'Viajante solitário' - p.163
Imagem: o corredor de luz. MON - curitiba, janeiro/2007
"Porque o silêncio em si é o som dos diamantes que podem cortar tudo, o som da Vacuidade Sagrada, o som da extinção e da bem-aventurança, esse silêncio de cemitério que é como o silêncio do sorriso de um bebê, o som da eternidade, da beatitude na qual certamente é preciso acreditar, o som de jamais-houve-nada-senão-Deus (que em breve eu ouviria em uma ruidosa tempestade no Atlântico). - O que existe é Deus em Sua Emanação, o que não existe é Deus na Sua serena Neutralidade, o que nem existe nem não existe é a divina e imortal aurora primordial do Céu Pai (este mundo neste exato instante). - Por isso eu disse: - 'Permaneça nisso, aqui não existem dimensões para quaisquer das montanhas ou mosquitos ou vias lácteas inteiras de mundos'."
Jack Kerouac, 'Sozinho do topo da montanha', in 'Viajante solitário' - p.163
Imagem: cactos maiores que a minha casa... eles tocam o céu - curitiba, janeiro/2007
"Eu simplesmente me deitava nos campos da montanha ao luar, com a cabeça na grama, e ouvia o reconhecimento silencioso das minhas angústias passageiras. - Sim, desse modo, tentar atingir o Nirvana quando você já está nele, atingir o topo de uma montanha quando já está lá e tem apenas que permanecer - assim, permanecer na bem-aventurança nirvânica é tudo o que tenho que fazer, que você tem que fazer, sem esforço, sem caminho realmente, sem disciplina, mas apenas saber que tudo é vazio e desperto, uma Visão e um Filme na Mente Universal de Deus (Alaya-Vijnana) e permanecer mais ou menos sabiamente em meio a isso."
Jack Kerouac, 'Sozinho do topo da montanha', in 'Viajante solitário' - p.163
Imagem: Labirintos - Casa das Rosas - SP/dezembro/2006
"Pensando nas estrelas noite após noite começo a perceber que "As estrelas são palavras" e todos os incontáveis mundos da Via Láctea são palavras, e esse mundo também o é. E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de idéias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida pelo que ela é e não forme idéias preconcebidas de espécie alguma em sua mente."
Jack Kerouac, 'Sozinho do topo da montanha', in 'Viajante solitário' - p.161
Imagem: Círculos na bienal de SP - horizontalidade e repetição têm me atraído muito - dezembro/2006
As ONGs de desenvolvimento constituem um importante subconjunto da sociedade civil. Durante décadas, deram contribuições importantes para temas fundamentais da política de desenvolvimento. A diferença hoje em dia, especialmente nos países em desenvolvimento, é o quanto os governos e agências de ajuda esperam que aquelas organizações ofereçam em termos de serviços sociais, tanto de forma independente como em colaboração com o governo. Isso é parte da tendência mais geral de reduzir as obrigações dos governos e deslocar a responsabilidade dos serviços sociais para o setor privado comercial e para as organizações sem fins lucrativos. Em meados dos anos 90, as ONGs de desenvolvimento desembolsaram aproximadamente 15% do total da ajuda pública para o desenvolvimento.
Os doadores assumiram que as ONGs de desenvolvimento são mais eficientes na prestação de serviços do que os governos, porém há poucas evidências disso. Na verdade, as ONGs de desenvolvimento tendem a ter um alcance desigual, a oferecer serviços de qualidade variável e, muitas vezes, a prover cobertura esporádica. Normalmente, a vantagem delas é de poderem experimentar novas abordagens e adaptar os projetos às circunstâncias locais.
Os doadores gostariam de ver o etos de independência e criatividade das ONGs de desenvolvimento perpassar os programas de ajuda oficial. Infelizmente, parece estar acontecendo o contrário: as ONGs de desenvolvimento estão se tornando dependentes dos doadores estrangeiros e tendendo a não questionar as políticas e procedimentos do doador. Atualmente, um número muito menor de ONGs de desenvolvimento se considerariam defensores ativos dos pobres. Como prestadores de serviços contratuais, muitas delas cumprem ordens.
Provavelmente o perigo mais sério de prestar serviços através das ONGs de desenvolvimento é o da confusão das linhas de responsabilidade. Mesmo quando os serviços são subcontratados, a responsabilidade última por sua qualidade deve ser do governo. No entanto, a medida que os governos abandonam certas áreas, pode ficar reduzida sua capacidade de formular estratégias eficazes ou de monitorar e avaliar subcontratados.
Fonte: p. 9 do resumo executivo - relatório do UNRISD para a CMDS+5/janeiro de 2002 - "Mãos Visíveis: assumindo responsabilidade pelo desenvolvimento social"
Imagem: ponta seca sobre acrílico feita em 2004... saudade do Miminho!
"Os regimes democráticos também são vulneráveis às forças centrífugas dos conflitos étnicos. De fato, alguns governos são tentados a recorrer à autocracia como um meio de manter unido um Estado multiétnico. A diversidade étnica não é um problema em si mesmo. Os problemas surgem somente quando a identidade étnica é politizada; aí pode ser utilizada para provocar um comportamento insular, xenófobo e destrutivo. É possível que as guerras civis dos anos 90 não tenham começado como conflitos étnicos, porém a identidade étnica certamente veio para primeiro plano depois que esses conflitos foram iniciados. Há muitas maneiras de acomodar os interesses dos grupos étnicos, fazê-los coincidir com as necessidades de sistemas políticos e sociedades diferentes. Por exemplo, as estruturas federais podem atribuir autoridade considerável às assembléias estaduais ou provinciais. Os governos também podem escolher sistemas eleitorais que estimulem os partidos a dirigir-se aos eleitores de vários grupos étnicos. Ou então, podem aceitar o fato de que os cidadãos irão votar de acordo com divisões étnicas e formular um sistema que obrigue os partidos baseados em grupos étnicos a compartilharem o poder.
As reformas devem ter como objetivo enfraquecer a polarização e promover a moderação. Elas também devem fortalecer as instituições que não são construídas de acordo com as divisões étnicas, como sindicatos, as associações profissionais e outras organizações civis. Os governos devem evitar o "congelamento" das divisões étnicas e devem dar espaço a seus cidadãos para que mudem suas filiações ou expressem identidades múltiplas".
Fonte: p. 6 do resumo executivo - relatório do UNRISD para a CMDS+5/janeiro de 2002 - "Mãos Visíveis: assumindo responsabilidade pelo desenvolvimento social"
Uma confiança exagerada na "mão invisível" dos mercados desregulamentados está combinada com um entendimento insuficiente da relação necessária entre políticas públicas e desenvolvimento. Mercados eficientes exigem a contribuição de um setor público bem administrado e também necessitam de uma população saudável, bem instruída e informada. Além disso, precisam da estabilidade social que deriva da governança democrática e de um nível aceitável de serviços públicos.
Mãos visíveis: Assumindo Responsabilidade pelo Desenvolvimento Social, um relatório do UNRISD para a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social+5, explora esforços recentes para reafirmar o valor da eqüidade e da coesão social num mundo cada vez mais individualista. Por si próprios, os mercados não têm nenhuma capacidade de imaginar ou criar uma sociedade digna para todos, somente as "mãos visíveis" de governos e de pessoas com espírito público podem realizar isso.
O Instituto de Pesquisa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social (UNRISD - United Nations Research Institute for Social Development) é uma agência autônoma, que desenvolve pesquisas multidisciplinares sobre as dimensões sociais de problemas contemporâneos que afetam o desenvolvimento. Seu trabalho é orientado pela convicção de que é crucial ter um entendimento do contexto social e político para poder formular políticas de desenvolvimento eficazes. O Instituto tenta oferecer a governos, agências de desenvolvimento, organizações populares e estudiosos um entendimento maior de como as políticas de desenvolvimento e processos de mudanças econômicas, sociais e ambientais afetam grupos sociais diferentes. Trabalhando através de uma extensa rede de centros de pesquisa nacionais, o Instituto busca promover pesquisa original e fortalecer a capacidade de pesquisa nos países em desenvolvimento. Atualmente, as áreas de pesquisas incluem a sociedade civil e os movimentos sociais; democracia, governança e direitos humanos; identidades, conflito e coesão; política social e desenvolvimento; e tecnologia, negócios e sociedade.
Fonte: resumo executivo - relatório do UNRISD para a CMDS+5/janeiro de 2002 - "Mãos Visíveis: assumindo responsabilidade pelo desenvolvimento social"
Imagem: pessoal da Biblioteca de Artes de Brasília (quando a Biblioteca não era só um lugar onde se podia encontrar livros... encontrava-se também uma enorme vontade e capacidade de concretizar projetos) - dias felizes, antes da injusta transferência da bibliotecária Margô... por questões políticas, infames questões que só quem está no meio da sujeira da máquina pública pode entender
"... e abaixo de mim lá estavam eles, os sorridentes botos, saltando e rabiscando arabescos no ar cinzento e úmido, às vezes sob os temporais que transformavam mar e chuva em uma coisa só."
Jack Kerouac, Viajante Solitário, p.126
Que os sorridentes botos saltem e rabisquem tudo em 2007 e que transformem mar e chuva numa coisa só, debaixo de sóis, luas ou tempestades - Feliz Ano Novo a todos!
Foto por Felipe Afonso - Bar da Bel em boa companhia - sampa - dez/2006