O filósofo Kiekkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem percorre para se conhecer. Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia nada. Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes. Disse que fosse ele um caracol vejetado sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente aprender o idioma que as rãs falam com as águas e ia conversar com as rãs. E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara nos livros demais. Porpem aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou por vezes de alcançar o sotaque das suas origens. Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite! Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles - esse pessoal. Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova. Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis lingüísticos que achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala. Sócrates falava que as expressões mais eróticas são donzelas. E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. O que de mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.
Manoel de Barros - Memórias Inventadas: a segunda infância, 'Aprendimentos', XIV.
"A dificuldade em estabelecer de maneira adequada a qualidade de relação que se está buscando aqui reside, sem dúvida, na exigência em articular os termos Pensamento e Arte enquanto matérias em movimento, com a potencialidade de um acontecimento - implicações derivadas do engajamento no processo de uma experiência. Como arrancar algo de produtivo - seja texto, seja trabalho de arte - a partir do mergulho na experiência mesma, com seu turbilhão de envolvimento na imediaticidade do que está a ocorrer? E mais, como garantir a legitimidade destes produtos, enquanto algo que autonomize-se, desenvolva uma consistência própria, para além do sujeito da experiência?"
não dizem por aí: "cuidado com o que deseja pois você pode conseguir"?
pois é... sempre quis cavalinhos, desde muito muito pequenina. enchi o saco do meu pai até ele não aguentar mais, e olhe que eu acreditava piamente que eu teria o meu cavalo.
agora eles aparecem à porta.
como diria raulzito: "tente! basta ser sincero e desejar profundo"
que roupa eu vou vestir? qual é o vôo que eu quero pra mim?
imagem: do filme "nós que aqui estamos por vós esperamos" de Marcelo Masagão. uma dessas coisas que aparecem do meio das pilhas de papel aqui em casa e que trazem sempre a mensagem necessária...
Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha encontros diários com as suas contradições. Acho que essa freqüência nos desencontros ajudava o seu ver oblíquo. Falou por acréscimo que ela não contemplava as paisagens. Que eram as paisagens que a contemplavam. Chegou de ir no oculista. Não era um defeito físico falou o diagnóstico. Induziu que poderia ser uma disfunção da alma. Mas ela falou que a ciência não tem lógica. Porque viver não tem lógica - como diria a nossa Lispector. Veja isto: Rimbaud botou a Beleza nos joelhos e viu que a Beleza é amarga. Tem lógica? Também ela quis trocar por duas andorinhas os urubus que avoavam no Ocaso de seu avô. O Ocaso de seu avô tinha virado uma praga de urubu. Ela queria trocar porque as andorinhas eram amoráveis e os urubus eram carnineiros. Ela não tinha certeza se essa troca podia ser feita. O pai falou que verbalmente podia. Que era só despraticar as normas. Achei certo.
Manoel de Barros - Memórias Inventadas: a segunda infância, 'Um Olhar', XII.
Imagem: postal enviado por Solange Reolon - mai/08
Nosso Profe. de latim, Mestre Aristeu, era magro e do Piauí. Falou que estava cansado de genitivos dativos, ablativos e de outras desinências. Gostaria agora de escrever um livro. Usaria um idioma de larvas incendiadas. Epa! o profe. falseou-ciciou um colega. Idioma de larvas incendiadas! Mestre Aristeu continuou: quisera uma linguagem que obedecesse a desordem das falas infantis do que as ordens gramaticais. Desfazer o normal há de ser uma norma. Pois eu quisera modificar nosso idioma com as minhas particularidades. Eu queria só descobrir e não descrever. O imprevisto fosse mais atraente do que o dejá visto. O desespero fosse mais atraente do que a esperança. Epa! o profe. desalterou de novo - outro colega nosso denunciou. Porque o desespero é sempre o que não se espera. Verbi gratia: um tropicão na pedra ou uma sintaxe insólita. O que eu não gosto é de uma palavra de tanque. Porque as palavras do tanque são estagnadas, estanques, acostumadas. E podem até pegar mofo. Quisera um idioma de larvas incendiadas. Palavras que fossem de fontes e não de tanques. E um pouco exaltado o nosso profe. disse: Falo de poesia, meus queridos alunos. Poesia é o mel das palavras! Eu sou um enxame! Epa!... Nisso entra o diretor do Colégio que assistira a aula de fora. Falou: Seo Enxame espere-me no meu gabinete. O senhor está ensinando bobagens aos nossos alunos. O nosso mestre foi saindo da sala, meio rindo a chorar.
Manoel de Barros - Memórias Inventadas: a segunda infância, 'Aula', X.
Imagem: postal enviado por Constança Lucas - é a Naná. mai/08
sim, em breve completarei mais uma volta ao redor do sol... fico tão entretida em dar voltas ao redor do meu próprio eixo que muitas vezes nem aproveito a longa viagem que é essa de dar uma volta ao redor do grande astro... e assim os anos passam cada vez mais rápido.
parece que foi ontem que fiz 30 anos... e amanhã já vou fazer 32! onde está esse 1 ano que deveria estar aí no meio? voou... os tantos compromissos têm me impedido de encontrar aquele tempo lento, da contemplação, do "nada pra fazer", do "agora vamos brincar do quê?"... aquele tempo definitivamente não é o tempo no qual eu vivo agora. o dia era looongoo... uma hora demorava a passar. era bom.
mas hoje não é ruim... eu só queria que às vezes o tempo andasse mais devagar. agora, em 24 horas, eu faço tantas coisas! hoje, por exemplo (meu último dia com 31 anos): acordei 5h30 em Brasília e desliguei o despertador do celular; voltei a dormir e levantei às 7h15; me arrumei em 20 minutos; peguei a estrada em direção à Goiânia; pensei incontáveis pensamentos (a estrada favorece a meditação); às 9h30 parei no Jerivá para tomar um café com leite e um pão de queijo para espantar o sono... dirigir com sono não dá; às 10h30 cheguei em Goiânia, abri a casa, abracei meu gato, alimentei meu peixe; dei uma olhada nos emails e preparei algumas coisas para a aula da tarde; perto das 12h00 falei com o Alexandre ao telefone; tomei banho; às 13h10 saí para comprar tinta guache e para almoçar; das 14h00 às 17h40 dei aula; depois passei no mercado na volta para casa e comprei pão, caqui, karo, banana, aveia, leite, presunto e queijo; cheguei em casa e alimentei meu peixe novamente; preparei a correspondência da amiga Constança; falei com a Alice ao telefone; limpei a geladeira (o congelador continha um iceberg gigantesco... não dava para adiar mais essa limpeza); tentei arrumar alguma coisa... passei pano num pedaço do chão da casa, lavei alguns sapatos, louças...; passei um café, esquentei o leite e comi o último alfajor Havana; chequei emails e resolvi registrar essa saga do último dia com 31 anos aqui no Diário. Quem sabe daqui uns 10 anos eu ache que o dia de hoje foi lentoooo... quem sabe o que eu estarei fazendo e onde, não é? Não sei... tenho deixado a vida apresentar as cartas para só então decidir o que vou jogar. E assim o barco segue.
Imagem: Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa; para Nelson 3 - de Nuno Ramos (foto tirada no CCBB no dia 07/06/08 - BSB)
Postal enviado por Ângela Lima - mai/08 - Gyn. Das coisas que a arte e a educação podem oferecer, essas são as que mais me emocionam... obrigada pelo carinho Ângela.
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Tempo
Eu não amava que botassem data na minha existência. A gente usava mais era encher o tempo. Nossa data maior era o quando. O quando mandava em nós. A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio. Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore e podia apreciar melhor os passarinhos. Ou: tem hora que eu sou quando uma pedra. E sendo uma pedra eu posso conviver com lagartos e musgos. Assim: tem hora que eu sou quando um rio. E as garças me beijam e me abençoam. Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes. Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecisa de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante. Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos moramos no rancho de palha perto de uma aguada. O rancho não tinha frente nem fundo. O mato chegava perto, quase roçava nas palhas. A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós. O pai passava o seu dia passando arame nos postes de cerca. A gente brincava no terreiro de cangar sapo, capar gafanhoto e fazer morrinhos de areia. Às vezes aparecia na beira do mato com a sua língua fininha um lagarto. E ali ficava nos cubando. Por barulho de nossa fala o lagarto sumia no mato, folhava. A mãe jogava lenha nos quatis e nos bugios que queriam roubar nossa comida. Nesse tempo a gente era quando crianças. Quem é quando criança a natureza nos mistura com as suas árvores, com as suas águas, com o olho azul do céu. Por tudo isso que eu não gostasse de botar data na existência. Porque o tempo não anda pra trás. Ele só andasse pra trás botando a palavra quando de suporte.
Manoel de Barros - Memórias Inventadas: a segunda infância, 'Tempo', XV.
o livro é esse:
um presente delicioso que ganhei da Margô e que só agora, uns 2 anos depois, comecei a ler. tudo tem seu tempo. obrigada Margozinha!
Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga. Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.
Manoel de Barros - Memórias Inventadas: a segunda infância, 'Sobre importâncias', IX.
Este eu ganhei da Amina, amiga que agora está na França, e que logo logo vai colocar o pé na estrada novamente. Ela se apropriou de um cartão postal de uma escultura de Chagall e fez essa arte com carimbo de borracha e adesivos no verso. Amina-artista!